Oralidade e gêneros orais na BNCC e na escola - por William Cereja - par

Oralidade e gêneros orais na BNCC e na escola – por William Cereja

Por par

8 de out de 2019 Livro didático

Convidamos o autor William Cereja para falar sobre a oralidade, que consiste em um dos eixos da Base Nacional Comum Curricular para o componente de Língua Portuguesa, na área de Linguagens.

Autor de mais de 30 obras didáticas, William Cereja é Mestre em Teoria Literária e Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, pela Universidade de São Paulo e pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, respectivamente.

Assista ao vídeo abaixo para conhecer melhor a nova edição da coleção Português: linguagens para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental:

A importância da oralidade

Na versão homologada da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), juntamente com leitura, produção de textos e análise linguística (gramática) está o eixo da oralidade, que apresenta a mesma importância dos demais eixos.

Para algumas escolas, professores e famílias que supervalorizam a produção escrita e consideram as atividades orais como de menor importância, convém estar atento às mudanças e às propostas da Base, pois a oralidade, hoje, cumpre um papel fundamental na formação da criança e do jovem.

Acho que vale a pena refletir um pouco sobre esse assunto e, inclusive sobre a diferença entre oralidade e gêneros orais. Na coleção Português: linguagens essas diferenças são levadas em conta e igualmente valorizadas.

Oralidade

Fazem parte da oralidade todas as práticas de linguagem que envolvem a oralização dos discursos, isto é, a fala e a escuta. Ela pode ser o centro das atividades ou o meio pelo qual ocorrem as interações e a construção do conhecimento.

Nas séries iniciais, por exemplo, quando o aluno ainda não tem pleno domínio da escrita, a oralização das práticas de leitura e escrita deve ganhar papel de destaque. A oralidade está presente, por exemplo, nas leituras de texto feitas pelo professor, que atua como mediador nos papéis de leitor e escriba, seja para interpretar textos, seja para letrar e alfabetizar; deve estar presente também nas leituras de texto feitas pelos alunos, nas quais vários aspectos ganham importância, como entonação, observação dos sinais de pontuação, ritmo, pausas, etc.

Além disso, a oralidade pode ser regularmente explorada em pequenas discussões em torno de textos. Na obra Português: linguagens, por exemplo, as seções “Trocando ideias” e “De olho na oralidade” estimulam os alunos a se posicionar a respeito do texto de abertura do capítulo e, a partir dele, em atividades individuais ou coletivas, como roda de conversa, roda de discussão, jogral, representação teatral, entre outras, trazer suas ideias, manifestar seu ponto de vista sobre um tema, debater as divergências, negociar, relatar experiências que sirvam como exemplo, cantar, declamar, representar, etc.

A oralidade também pode estar presente nas situações de leitura oral dos textos produzido pelos alunos, bem como na realização dos projetos e oficinas de produção textual, nos quais os alunos, em diferentes situações, participam de saraus, mostras, feiras e exposições, apresentando seus trabalhos ao público visitante. Assim, expõem o que aprenderam, atuam em peças teatrais, cantam cantigas de roda, declamam poemas, e assim por diante. Em nossa obra, isso ocorre ao final das unidades, na seção chamada “Oficina de criação”.

Esse conjunto de atividades orais desempenha um papel fundamental na interface leitura/escrita e, além de ser uma fonte de prazer e ludicidade, é também um excelente meio de interação entre as crianças, de trabalho colaborativo e de construção de valores.

Em séries maiores, findo o processo de alfabetização, é evidente que a oralização passa ter uma função diferente. Contudo, muitas de suas funções continuam, seja no âmbito do aprimoramento da leitura, seja no da escuta.

Gêneros orais

O fato de uma criança ou um adolescente falar muito ou ter desenvoltura para falar não garante necessariamente que ela tenha facilidade para falar em todas as circunstâncias profissionais e sociais.

No mundo em que vivemos, a expressão oral tem sido cada vez mais valorizada e, muitas vezes, é o critério decisivo para o sucesso profissional de muitas pessoas. Contudo, em algumas situações, as práticas sociais de linguagem são regradas e a escola pode desempenhar um importante papel no sentido de criar vivências que permitam o conhecimento e a apropriação de falas mais padronizadas. É o caso dos gêneros orais públicos, como a discussão em grupo, a exposição oral, o seminário, a entrevista oral, o debate regrado e muitos outros.

Esses gêneros possuem, além da estrutura, regras e procedimentos próprios que, dependendo do gênero, podem ser a tomada de notas, a troca de turnos (a vez de quem fala), o uso de equipamentos (gravadores, filmadoras, projetores) e a apropriação de estruturas linguísticas específicas, como “eu concordo”, “eu discordo”, “eu concordo em parte”, etc.

São muitos os gêneros orais públicos que podem ser trabalhados ao longo da vida escolar do estudante. Na coleção Português: linguagens, apresentamos um trabalho sistematizado com alguns gêneros orais desde o 1º ano, como a conversa telefônica, o recado em secretária eletrônica, o diálogo no teatro de fantoches, o poema, a trova e as cantigas orais. Nos volumes subsequentes, o trabalho continua com gêneros como a discussão em grupo, a entrevista oral, o debate regrado, até chegar a gêneros mais complexos, como o seminário, o debate deliberativo, a mesa-redonda, etc.

Assim, convém que os professores reconheçam que trabalhar a oralidade não é suficiente; da mesma forma, trabalhar apenas os gêneros orais também pode ser insuficiente. O trabalho conjugado de oralidade com gêneros orais públicos é que garante que o aluno não apenas se expresse bem ou desenvolva uma boa leitura oral, mas também enfrente as diferentes situações sociais em que é cobrado a se expressar oral e publicamente, fazendo uso adequado dos gêneros orais públicos.

A BNCC deu um passo à frente em relação às práticas de expressão oral quando propõe que aluno não apenas produza determinados gêneros na modalidade escrita – por exemplo, a notícia, a reportagem, a entrevista, a resenha crítica – mas produza também os mesmos gêneros para outras mídias e suportes digitais, como o podcast noticioso, blog, o jornal de rádio e o jornal televisivo, o vid, etc.

Eis, portanto, alguns dos novos desafios que a escola já começa a enfrentar com a implementação da BNCC. Cabe a todos nós, educadores, conscientizar as famílias de que a produção de textos não se restringe ao que é escrito e corrigido pelo professor, mas pelo conjunto de práticas, orais e escritas, que estão preparando nossos estudantes para os desafios do futuro.

Com nossas obras Português: linguagens e Todos os textos (voltada para a produção textual), ambas já de acordo com a BNCC, esperamos dar uma contribuição aos professores para que essas propostas alcancem plenamente seus objetivos.

Quer entender melhor como as habilidades evoluem ao longo da BNCC? Baixe o material gratuito sobre o assunto:

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